Infância, negligência emocional e regulação afetiva
A minha infância foi marcada por negligência emocional e extrema pobreza, acompanhadas de uma proibição explícita de brincar na rua e de estabelecer relações espontâneas com outras crianças. À luz de Torrado e Ouakinin (2016), esta ausência de um contexto relacional suficientemente regulador compromete desde cedo o desenvolvimento dos mecanismos de regulação emocional. As emoções, sendo fenómenos corporalizados e dependentes de processos de co-regulação nas primeiras fases de vida, necessitam de cuidadores que ajudem a criança a nomear, conter e modular os seus estados internos. Quando essa mediação falha, o corpo aprende a sobreviver sem tradução simbólica do afeto.
Neste sentido, reconheço que a privação relacional e afetiva da infância não foi apenas uma carência material ou social, mas uma falha estrutural na construção da segurança emocional. Tal como descrito no texto, a regulação emocional não emerge espontaneamente no indivíduo; ela é inicialmente externa e só mais tarde se internaliza. A ausência dessa regulação externa contribui para um funcionamento emocional baseado em estados difusos, pouco nomeáveis e frequentemente intensos.
Repetição relacional e violência na adolescência e idade adulta
Na adolescência e na fase adulta, vivi relações marcadas por violência doméstica e psicológica. Olhando retrospetivamente, parece-me evidente que fui procurar, ainda que inconscientemente, a mesma negligência afetiva da infância. Torrado e Ouakinin sublinham que os modelos internos de funcionamento formados nas relações precoces tendem a manter-se relativamente estáveis ao longo da vida, influenciando a forma como o indivíduo se relaciona e regula os afetos. Não se internaliza apenas a figura cuidadora, mas a experiência relacional com ela.
Assim, a permanência em relações violentas pode ser compreendida não como escolha racional ou falha moral, mas como coerência interna com um modelo afetivo onde o sofrimento é familiar e previsível. A violência, paradoxalmente, surge como continuidade e não como rutura, porque o corpo reconhece aquele padrão como conhecido, mesmo que destrutivo.
Drogas, sobrevivência e regulação artificial do afeto
Entre os 18 e os 24 anos recorri de forma severa ao uso de drogas. À luz do texto, este comportamento pode ser entendido como uma tentativa de regulação emocional por vias externas, quando os mecanismos internos são frágeis ou insuficientemente desenvolvidos. A droga surge como modulador direto do estado fisiológico e experiencial, funcionando como um regulador artificial do afeto.
A recuperação, que hoje soma quase 28 anos, não apaga a matriz regulatória de base. Como Torrado e Ouakinin referem, os processos de regulação emocional não são apenas comportamentais, mas neurobiológicos e desenvolvimentais. A cessação da substância não implica, por si só, a reconstrução automática dos circuitos emocionais afetados por décadas de desregulação precoce.
Isolamento, desconfiança e falha institucional
Apesar da recuperação, continuo a isolar-me em casa e a não confiar em ninguém. O último episódio de violência doméstica e psicológica, prolongado por 15 anos e agravado pela falha da justiça e dos tribunais, levou-me a um estado em que já não consigo trabalhar, apesar de anteriormente ter sido uma pessoa funcional, produtiva e reconhecida pelo seu desempenho.
Aqui, torna-se evidente o impacto da vitimização prolongada na regulação emocional. O texto mostra que a exposição continuada a contextos de ameaça ativa persistentemente os sistemas defensivos, particularmente o sistema aversivo descrito por Lang. Quando a ameaça não é reconhecida nem reparada pelas instituições, o organismo mantém-se em estado de alerta crónico, tornando inviável o investimento em atividades como o trabalho, que pressupõem um mínimo de segurança interna e externa.
Substituição do objeto aditivo: comida e estudo
Atualmente, embora afastada das drogas, reconheço a persistência de comportamentos aditivos, agora dirigidos à comida e ao estudo. Estou inscrita em oito cadeiras quando apenas cinco seriam exigidas. Esta deslocação do comportamento aditivo confirma a perspetiva de que o essencial não reside no objeto, mas na função regulatória que ele desempenha.
Segundo Torrado e Ouakinin, a regulação emocional pode assumir formas aparentemente adaptativas, mas ainda assim excessivas. O estudo compulsivo, tal como a comida, funciona como tentativa de controlo, de estruturação interna e de anestesia emocional. Não se trata apenas de ambição ou disciplina, mas de uma necessidade de manter o afeto dentro de limites suportáveis.
Síntese reflexiva
A minha história confirma, de forma concreta, que a emoção não é apenas reação momentânea, mas um processo profundamente moldado pelo desenvolvimento, pelas relações precoces e pelos contextos de violência e falha institucional. A negligência emocional inicial, a repetição relacional da violência, o recurso a substâncias e a substituição por outras formas de adição revelam uma mesma linha de continuidade: a procura de regulação onde ela nunca foi suficientemente aprendida.
Tal como defendem Torrado e Ouakinin (2016), compreender a emoção implica integrar corpo, história e relação. No meu caso, a sobrevivência precedeu durante muito tempo a simbolização. Hoje, este exercício reflexivo representa já uma forma de regulação de nível superior: a possibilidade de pensar a emoção, nomeá-la e enquadrá-la teoricamente, sem a negar nem a romantizar.